Tag:

Lucas

Talvez o título te assuste, mas espero que ao decorrer entenda.

Lembro-me do dia que estava lendo a Bíblia e levei um susto, era exatamente essa história, quando Pedro nega Jesus três vezes. E francamente, perdi a conta de quantas vezes li e ouvi sobre essa história, mas nenhuma delas me trouxe esse impacto. Quando terminei de ler o acontecimento narrado, me veio um pensamento estranho e, há quem diga, assustador: “Eu gostaria de pecar como Pedro.” Parecia loucura a princípio, mas depois de refletir um pouco mais, cheguei à conclusão de que aquele desejo era real, eu gostaria realmente de pecar do jeito que Pedro pecou. Notei que foi isso que ele me ensinou, e decidi ensinar também.

Como você deve pecar? Bom, isso é o que vamos ver, ou tentar.

Cheguei a conclusão de que, você deve pecar de tal maneira que ao cometer isso você leve um susto consigo mesmo. O pecado na vida de um seguidor de Jesus não é pressuposto. É certo que Pedro estava enganado a respeito de si, quando disse que seria capaz de morrer por Jesus. Mas também é verdade que ele realmente acreditava que não negaria Jesus e estava convencido de que se fosse necessário morreria por Ele. A prova disso é que quando os militares romanos chegaram para prender Jesus, Pedro arrancou a orelha de um deles. Pedro não se acovarda, mas enfrenta os soldados romanos. Inclusive numa luta desigual, um grupo de pescadores contra um agrupamento militar. Pedro realmente estava disposto a morrer. Mas Jesus o barrou: “Não, Pedro, não é assim.” Pedro se surpreende, dá um passo para trás e fica um pouco confuso. Naquela noite após a prisão de Jesus, Pedro o nega três vezes, como Jesus havia antecipado. Mas o fato é: Pedro acreditava que conseguiria ser fiel.

Assim é que devemos pecar, acreditando que não pecaremos. Devemos pressupor a nossa fidelidade a Deus, e não ao nosso pecado. Surpreendente na vida de um discípulo de Jesus não é a fidelidade, mas o pecado.

Eu gostaria de ficar surpresa comigo mesma quando pecasse. Gostaria que o pecado fosse uma experiência surpreendente para mim. Então comecei a acreditar que tudo posso nAquele que me fortalece. Desejar a profunda convicção de que é possível, sim, fortalecida por Deus, andar na luz, e quero levar sustos quando eu, porventura, tropeçar na escuridão.

(Lucas 22:54-60)

Prossigo com o ensinamento de Pedro a mim, e a primeira lição foi que você deve acreditar que é capaz de não pecar. Digo novamente, o pecado não é pressuposto. A segunda lição é que o pecado deve ser para você um evento e não uma rotina. Eu sei, pecamos constantemente, mas diferente é você planejar o pecado, cometer sabendo o que está fazendo. Não digo que a nossa natureza pecaminosa justifica nossos atos, mas fomos gerados em pecado.

A prática do pecado não define a identidade de um discípulo de Jesus. A prática do pecado confunde a identidade de um discípulo de Jesus. É como se de repente você esquecesse de quem é em Deus, e isso é um grande problema na nossa geração, a oscilação de ora é ora não é.

Isso significa que Pedro agiu de maneira covarde, sim, mas Pedro não era covarde. Há uma grande diferença nisso.

Pedro cometeu um pecado, mas não era definido por ele. Agiu com covardia, mas não carregava o adjetivo de covarde no seu caráter.

Repito, o pecado não é pressuposto na vida de um discípulo. Por essa razão, é também eventual, não faz parte da rotina e nem define o caráter do discípulo.

O pecado não é a prática usual de quem anda na luz. É possível ser surpreendido em um momento de fraqueza, pois somos vulneráveis, limitados, enfim, somos imperfeitos. Podemos tropeçar em uma pedra no caminho, ninguém está livre disso. Ou até mesmo agir impetuosamente, revelando a maldade e as sombras que ainda habitam nosso coração. Mas tais tropeços não definem um discípulo de Jesus, se definissem, Jesus teria andado sozinho na terra.

Eu gostaria muito que alguém, quando me surpreendesse em pecado dissesse: “Eu não esperava isso de você.” É triste quando as pessoas são flagradas e os comentários que mais escutamos são: “Ah, dessa pessoa eu não esperava coisa diferente” ou “Eu já imaginava que isso aconteceria, era só questão de tempo”. O pecado pode acontecer em um momento, mas não deve ser um hábito, pois os hábitos definem o caráter.

(Lucas 22:60-62)

A Bíblia apresenta dois conceitos de pecado. Um deles diz respeito à condição humana, independentemente do que o ser humano faz ou deixa de fazer; ele vive nessa condição, que a Bíblia chama de pecado, e por isso Paulo afirma desesperado: “Miserável homem que sou! Eu sou pecador.” (Romanos 7:24) Mas a Bíblia também fala de pecados no plural. E esses pecados tem a ver com o que a gente faz ou deixa de fazer, fala ou deixa de falar, pensa ou deixa de pensar. Os pecados são quebras. Os mandamentos da Bíblia expressam o caráter de Deus. Isto é, porque Deus é verdadeiro e fiel, o ato de mentir e a infidelidade são pecados. A segunda definição de pecado ilumina nossa análise do pecado cometido por Pedro ao negar Jesus. Pedro se comporta de maneira surpreendente, e age de um jeito que não lhe era característico. Em determinado momento de sua vida ele age com covardia, mas de modo algum poderia ser considerado um covarde. Essas são as duas primeiras lições que me desejaram pecar como Pedro.

A terceira lição é que o pecado é seguido de lágrimas. O ato de pecar vem acompanhando de vergonha e culpa. O sentimento de culpa é uma das chaves mais maravilhosas para experimentarmos a graça de Deus. Somente os cínicos e psicopatas agem mal e não sentem culpa. A primeira pessoa desapontada com o discípulo que peca é o próprio discípulo, ou seja, ele mesmo. O pecado sempre resulta em sofrimento, e a pessoa que pecou é a que mais sofre. Na verdade, é a primeira a chorar.

Peço a Deus que me conceda lágrimas, não quero que Ele me dê lágrimas pelo meu pecado, mas que me dê à possibilidade de sofrer o fato de pecar e ser pecador.

(Lucas 22:62)

Continuo nesse ensinamento. As primeiras lições foram resumidas em: o pecado não é pressuposto, o discípulo de Jesus realmente acredita que não vai pecar; o pecado é eventual e esporádico, não é uma rotina e nem define o caráter ou a identidade do discípulo; o pecado implica vergonha e culpa, nos faz chorar. E finalmente, carrego a última lição: o pecado é seguido de arrependimento.

Após negar Jesus três vezes na mesma noite, Pedro chorou amargamente. Judas também chorou após trair Jesus. Mas são dois tipos diferentes de lágrimas. O choro de Judas o leva ao suicídio. Ele provavelmente se deu conta do que havia feito, mas não voltou para olhar nos olhos de Jesus, escolheu outro caminho. Mas com Pedro é diferente. Suas lágrimas lavam seus olhos para que ele veja Jesus de novo.

O arrependimento nos permite olhar para Deus novamente. Pedro negou Jesus, foi surpreendido pelo seu pecado, experimentou a culpa e a vergonha, sofreu e chorou, mas voltou para recomeçar sua caminhada como discípulo. É pra isso que Ele nos convida.

O arrependimento nos faz recomeçar de novo e de novo…

A Bíblia diz que há uma tristeza para o arrependimento: a tristeza segundo Deus. Pedro a experimentou; Judas, não. Quando pecamos o Espírito Santo faz cair sobre nós essa “tristeza” e nos permite viver a vergonha da culpa, que considero como uma oportunidade divina, a porta para experimentarmos o arrependimento. O arrependimento nos traz de volta para Deus. Quando experimentamos essa tristeza, é a mesma tristeza que funciona como impulso para voltarmos a Quem nós pertencemos.

Deus não está no céu com um chicote na mão, aguardando nossa fraqueza, nosso pecado ou tropeço para nos castigar. Deus está com os olhos postos em nós para nos estender a mão toda vez que tropeçarmos. Ele é nosso parceiro para nos ajudar a começar de novo. A verdade é, ninguém pode ir tão longe que o amor de Deus não o alcance. Ninguém pode fazer algo imperdoável aos olhos de Deus. O pecado não é irreversível. É possível recomeçar; essa é a esperança que Ele nos dá.

João diz que não devemos pecar, mas se pecarmos temos em Jesus nosso aliado para nos ajudar a voltar a Deus.

Pedro me trouxe o desejo de não tornar meu pecado pressuposto e muito menos rotineiro. Mas me trouxe a realidade das lágrimas e do arrependimento. Fez-me entender que eu não devo depositar minha confiança no “e se eu pecar”, mas no “morreria por Jesus”, mesmo consciente da minha natureza.

Ele não desistiu, e jamais desistirá de mim. Mas me ajuda a recomeçar, uma vez, duas, de novo e sempre.

O meu corpo está cansado, e o seu? Deleite-me.

Afinal, Ele continua me ensinando.

22 de junho de 2016 5 comentários
34 Facebook Twitter Google + Pinterest